Sistema Eletrônico de Administração de Conferências, Simpósio Sul Brasileiro de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono

Tamanho da fonte: 
O melhoramento de pastagem em sistemas de caívas no Norte Catarinense não resultou em aumento nos estoques de carbono após seis anos de manejo
Kelly Tamires Urbano Daboit, Letícia Sequinatto Rossi, Leonardo Rodrigues, Gustavo Eduardo Pereira, Marlise Nara Ciotta, Aline Lima de Sena, Caroline Inês Probst Alves, Eduardo Bleichvel Oneda, Tiago Celso Baldissera, Ana Lúcia Hanisch

Última alteração: 2024-04-22

Resumo


 

Contribuição para a sociedade: Caívas são sistemas agroflorestais de extrativismo da erva-mate consorciados com produção animal, presentes na Região Norte de Santa Catarina, contribuem significativamente com a economia local. No entanto, as pastagens nessas áreas enfrentam desafios, apresentando baixa produtividade e levando muitos agricultores a substituí-las pela implantação de pastagens convencionais e espécies exóticas. Esse cenário resulta em desequilíbrio ambiental e aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE). Propõem-se elevar a produtividade das áreas naturais por meio de práticas de manejo sustentável. Como a introdução da grama missioneira-gigante (Axonopus catharinenis), acompanhada de práticas de calagem e adubação. Essas medidas visam aumentar a produtividade e fornecer serviços ecossistêmicos, como o aumento no estoque de carbono (EstC) no solo. A recente implementação do sistema de melhoramento ainda não gerou resultados expressivos. Apesar disso, a tendência de longo prazo aponta para aumento nos teores de matéria orgânica no solo, impulsionado pelo crescimento da biomassa vegetal.
Palavras-chave: Agrofloresta, pecuária, cultura, gases de efeito estufa, serviços ambientais.

Introdução: Caívas são sistemas agroflorestais que ocorrem no Sul do Brasil, nas áreas de Floresta Ombrófila Mista. Neste sistema ocorre a extração da erva-mate nativa e produção de bovinos de corte e leite (HANISCH; PINOTTI, 2024). As pastagens que compõem as caívas apresentam baixo potencial produtivo, devido à ausência de manejo inadequado. A baixa produtividade do pasto reflete-se diretamente na baixa produtividade da área e muitos agricultores substituem as caívas por sistemas produtivos de maior retorno econômico como introdução de espécies exóticas como o pínus e eucalipto ou adoção de sistemas de pastagens convencionais (HANISCH; BONA; MARQUES, 2009). A implementação de sistemas integrados com pecuária e floresta é apontado como uma das principais estratégias na recuperação de áreas de pastagens degradadas e improdutivas, além de contribuir com a redução da emissão de GEE (CHERUBIN et al., 2023) e aumentar o EstC no solo. O C exerce controle sobre diversos processos-chave no solo, incluindo a ciclagem de nutrientes, a dinâmica da água, a atividade microbiana e os fluxos de gases de efeito estufa (Schmidt et al., 2011). Aumentar os estoques de C orgânico (CO) no solo é manter os serviços ambientais (STAVI; LAL, 2013). A adaptação e garantia da segurança alimentar, podem ser fortalecida ao promover o estoque de C (EstC) do solo, por meio da adoção de práticas adequadas de manejo do solo e sistemas de produção (RUMPEL et al., 2021). O objetivo deste estudo foi avaliar dois sistemas de caívas na Região Norte de Santa Catarina em relação aos estoques de carbono no solo, até uma profundidade de 100 cm, sendo uma área com adoção de tecnologias de manejo para melhoria das pastagens e outra sem melhoramento.

Material e métodos: Foram coletadas amostras de solo em dezembro de 2022 em dois municípios do Norte Catarinense, Major Vieira (26°27'21.0"S, 50°17'46.0"W) e Canoinhas (26° 13' 25" S, 50° 22' 5" W) com melhoramento de pastagens implantado no ano 2019 e sem melhoramento do sistema de pastagem respectivamente. A região possui clima Cfb, temperatura média anual de 17,4ºC e precipitação média anual de 1321,5 mm. Os solos das áreas avaliadas foram classificados como Latossolo Vermelho Distrófico típico (HANISCH et al., 2010). Em cada local foram abertas duas trincheiras de 100 cm de profundidade com o auxílio da uma retroescavadeira. O solo foi amostrado em seis profundidades de 0-5, 5-10, 10-20, 20-40, 40-60 e 60-100 cm. Nas respectivas profundidades, foram realizadas coletas de amostras de solo indeformadas utilizando anéis volumétricos para determinação da densidade do solo (EMBRAPA, 2017). Além disso, foram coletados 500 g de solo em duas faces da trincheira, totalizando 4 repetições para cada profundidade. Para determinação do C das amostras foi utilizado o método de combustão a seco (Analisador elementar – TOC Modelo Multi N/C 2100 da Analytik Jena). seguindo a metodologia descrita pela Embrapa (2017). Os EstC foram calculados pela expressão:,  em que Ds é a densidade do solo em Mg m³, P é a profundidade da camada do solo em metros e C é a concentração de carbono no solo em g kg-¹. Os dados foram submetidos a análise de variância (ANOVA) (p>0,05) através do software SAS (versão SAS On Demand for academics).

Resultados e discussões: Não houve diferença significativa entre as áreas de caívas nas profundidades avaliadas. No entanto, nota-se uma tendência de decréscimo do EstC à medida que a profundidade do solo aumenta em ambos os tratamentos (Figura 1).

Figura 1. Estoque de carbono (g kg-1) em diferentes profundidades de solo em sistemas de caíva no Norte de Santa Catarina. (A) Área com melhoramento de pastagens. (B) Área sem melhoramento de pastagens.

Esse incremento superficial é atribuído as variações do manejo e a influência das raízes (PARROM et al., 2015 e RUMPEL et al., 2021). Apesar dos menores teores de C nos horizontes subsuperficiais, este C contribui com mais da metade do EstC no perfil do solo. Portanto, é importante no balanço global do C. Provavelmente a ausência de diferenças estatísticas entre os tratamentos está relacionada ao tempo de implantação do sistema que é de 6 anos, o que pode ser insuficiente para expressar as diferenças entre os manejos avaliados. Colaborando com esses resultados, muitos estudos atribuem a matéria orgânica (MO) o papel determinante na dinâmica e fluxos de C do solo, sendo esta, decomposta biologicamente em escalas de tempo muito variáveis, entre 50 a 1000 anos (DWIVEDI et al., 2019). Tratando-se de um Latossolo o carbono pode estar fortemente retido nas partículas de argila devido ao aumento de superfícies minerais ativas promovendo a redução da reciclagem microbiana e consequente estabilidade de C no solo (ISLAM et al., 2022).
Conclusão: No período de seis anos de avaliação não foram observadas diferenças significativas no EstC no solo entre sistemas de manejo de caívas no Norte de Santa Catarina.

 


Palavras-chave


Agrofloresta; pecuária; cultura; gases de efeito estufa, serviços ambientais.

Referências


Referências:

CHERUBIN, M. R. et al. Matéria orgânica do solo em áreas de pastagens no Brasil. In: W. BETTIOL, C. A. SILVA, C. E. P. CERRI, L. MARTIN-NETO, C. A. ANDRADE. Entendendo a matéria orgânica do solo em ambientes tropical e subtropical. 1 ed. Embrapa. 2023. 601–625p

 

DWIVEDI, D. et al. Abiotic and biotic controls on soil organo–mineral interactions: developing model structures to analyze why soil organic matter persists. Reviews in Mineralogy and Geochemistry, v. 85, n. 1, p. 329-348, 2019.

 

EMBRAPA, Centro Nacional de Pesquisa de Solos. Manual de métodos de análise de solo. 3 ed. Rio de Janeiro: EMBRAPA, p. 575, 2017.

 

HANISCH, A. L., BONA, L. C; MARQUES, A. C. Resposta de pastagens nativas à adubação com insumos agroecológicos em áreas de caíva no Planalto Norte Catarinense. Revista de Estudos do Vale do Iguaçu, v. 14, p. 123-138, 2009.

 

HANISCH, A. L. et al. Estrutura e composição florística de cinco áreas de caíva no planalto norte de Santa Catarina. Pesquisa Florestal Brasileira, v. 30, n. 64, p. 303, 2010.

 

HANISCH, A. L. et al. Melhoria da produção animal em áreas de caíva e sua contribuição para a viabilização de corredores ecológicos. Desenvolvimento Regional em debate, v. 6, n. 2, p. 170-188, jul. 2016.

 

HANISCH, A. L.; PINOTTI, L. C. A.. Co-Creating Strategies to Optimize Traditional Silvopastoral Systems through the Management of Native Trees in Caívas in Southern Brazil. Conservation, v. 4, n. 1, p. 65-81, 2024.

 

ISLAM, M. R.; SINGH, B.; DIJKSTRA, F. A. Stabilisation of soil organic matter: Interactions between clay and microbes. Biogeochemistry, v. 160, n. 2, p. 145-158, 2022.

 

RUMPEL, C.; CHABBI, A. Managing soil organic carbon for mitigating climate change and increasing food security. Agronomy, v. 11, 1553, 2021.

 

SCHMIDT, M. W. I. et al. Persistence of soil organic matter as an ecosystem property. Nature, v. 478, n. 7367, p. 49-56, 2011.

 

STAVI, I.; L. A. L, R. Agriculture and greenhouse gases, a common tragedy. A review. Agronomy for Sustainable Development. Les Ulis, v. 33, n. 2, p. 275-289, 2013.